¨¨SABER ACADÊMICO¨¨..Revista acadêmica da FAPEPE.
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PUBLICAÇÕES - RESENHAS

¨¨SABER ACADÊMICO¨¨..Revista acadêmica da FAPEPE.
REVISTA MULTIDISCIPLINAR N° 01 - JUNHO DE 2006 / ISSN 1980-5950

RESENHAS
O olhar dirigido: um coment√°rio sobre Relatos de Viagem √ URSS:

Uma pr√°tica de militantes comunistas

¬ĻC√ÉNDIDO, Weslei Roberto


Está para ser lançado o livro do professor Edvaldo Correa Sotana sobre as viagens que os intelectuais brasileiros fizeram à antiga URSS. O livro é resultado de uma dissertação de Mestrado defendida na UNESP de Assis, no ano de 2003. Apesar de seu caráter acadêmico, exigido a um texto científico que passará por uma banca examinadora, o livro apresenta uma prática do partido comunista e de seus membros pouco explorada pelos livros de história do Brasil.

Neste trabalho o leitor poder√° entrar em contato com as experi√™ncias de intelectuais brasileiros de renome como Caio Prado J√ļnior, Graciliano Ramos, Jorge Amado entre outros ‚Äď todos ligados ao PC do B ‚Äď que viajaram √ URSS como se estivessem indo ao para√≠so, ao modelo governamental ideal e defendido por todos os membros do partido comunista.

A virtude do texto √© o panorama que leitor tem dessa experi√™ncia dos intelectuais brasileiros, que vai do encantamento, numa esp√©cie de lua de mel com o partido comunista, ao choque com a realidade sovi√©tica e tamb√©m com o PC do B, num processo de desilus√£o e desconstru√ß√£o dos sonhos dos membros partid√°rios. Chega a ser hil√°rio saber que um dos simpatizantes do partido teve uma crise de ‚Äúgota‚ÄĚ ao saber das den√ļncias de Kruchev.

Esse turismo vermelho, se √© que assim pode ser chamado, √© um assunto pouco explorado, por√©m muito interessante por mostrar um trabalho de divulga√ß√£o dos ideais socialistas entre a camada culta brasileira. A propaganda, segundo pode-se ler no livro, parece ter sido bem constru√≠da, pois at√© um intelectual como Caio Prado J√ļnior, mesmo sofrendo press√Ķes do PC do B e n√£o tendo seus livros publicados pela imprensa partid√°ria, o que o obrigou a publicar seus livros com os recursos de sua editora, jamais deixou o partido. A inten√ß√£o do PC do B era clara. Promovia a viagem de seus partid√°rios √ URSS, ap√≥s uma sele√ß√£o que avaliava qual membro do partido apresentava as condi√ß√Ķes ideais para viajar e, depois, cobrava destes os relatos da viagem, sempre positivos, para publicar e divulgar os ideais socialistas. A viagem tamb√©m garantia a veracidade do que era pregado pelo partido, pois o intelectual havia conhecido, visto com seus olhos e n√£o nos livros o t√£o sonhado modelo sovi√©tico, em suma, seria uma testemunha viva de como o governo socialista era melhor que o capitalismo.

Essa obrigatoriedade de publicar um relato positivo sobre a URSS √© outro ponto interessante no livro, pois o leitor pode se questionar como intelectuais, o que pressup√Ķe pessoas com alto grau de criticidade, aceitaram ter seu relatos dirigidos por um partido pol√≠tico.

Deste modo, o livro apresenta um duplo olhar dirigido. O primeiro é a visão que os próprios soviéticos tentaram mostrar aos intelectuais brasileiros, escolhendo lugares a serem visitados, os horários de chegada e saída, enfim a ocultação dos defeitos e falhas do sistema socialista. O segundo olhar é o que é comprado, divulgado e direcionado pelo partido comunista no Brasil no momento da preparação dos originais para a publicação dos relatos de viagem.

Assim, se os intelectuais brasileiros foram em busca da terra prometida e da paz na URSS para tom√°-la como modelo, encontraram a censura, o corte, a cis√£o da liberdade ao produzir seus discursos sobre o t√£o sonhado sistema perfeito de governo. Para construir um partido com uma identidade forte, sem ranhuras √© preciso ocultar os defeitos, apagar os elementos indesej√°veis que o Outro n√£o pode conhecer para evitar a desilus√£o, e, isso, alguns membros do partido comunista tiveram que aprender de maneira um pouco amarga. N√£o se que afirmar, no entanto, que os intelectuais brasileiros eram desprovidos de esp√≠rito cr√≠tico, mas percebe-se que est√£o iludidos, seduzidos pela utopia do socialismo. Um exemplo desse encantamento √© a atitude do romancista Graciliano Ramos que chega a sair da presen√ßa do t√ļmulo de L√™nin de costas para n√£o perder o momento sublime.

Por√©m, deve-se a este mesmo intelectual um dos momentos de conflito com a realidade da URSS no livro do professor Edvaldo Sotana. Para Graciliano n√£o h√° c√©u nem inferno, ou seja, o que lhe foi apresentado pelos sovi√©ticos era perfeito demais; isto instigou o esp√≠rito cr√≠tico do romancista e conseq√ľentemente as dificuldades que teve para publicar Viagem. Mesmo depois de morto, o partido tentou impedir a publica√ß√£o do livro, pois este poderia ferir a vis√£o paradis√≠aca da URSS oferecida por outros membros do PC do B ao leitor brasileiro.

Em um primeiro momento o leitor mais especializado pode criticar o livro pela impress√£o de falta de coment√°rios cr√≠ticos por parte de seu autor, no entanto, a panor√Ęmica que se tem desse per√≠odo de guerra fria nas duas primeiras partes, mostrando a necessidade de estar em acordo com o PC do B para ser um comunista e a lua de mel em pouco tempo interrompida pelas den√ļncias de Kruchev √© uma instigante viagem pelos discursos da intelectualidade brasileira. O terceiro cap√≠tulo √© mais cr√≠tico e interpretativo dos relatos de viagem, pois se tem o coment√°rio dos testemunhos deixados pelos brasileiros que viajaram √ URSS. O livro pode ser resumido em encantamento e lua de mel, desencanto e desilus√£o com o partido comunista, o que levou alguns membros do partido a terem um outro olhar sobre o socialismo sovi√©tico. Talvez o livro seja um interessante caminho para pensar o ostracismo em que caiu hoje o partido comunista no Brasil. Esquecimento que pode ser questionado e avaliado pelo vi√©s de algumas atitudes do pr√≥prio partido comunista apresentadas no livro em quest√£o.

Resta apenas, neste momento, convidar o leitor a fazer essa viagem pelos relatos e quem sabe ter um terceiro olhar do papel dos intelectuais brasileiros no PC do B. Mais uma vez o olhar ser√° dirigido, cabe ao leitor redirecion√°-lo e organizar sua viagem pelos por√Ķes da hist√≥ria brasileira.
¬ĻWeslei Roberto C√Ęndido √© Mestre em Literatura pela UNESP/ Assis e atualmente √© professor dos cursos de Letras e Tradutor da Faculdade de Presidente Prudente FAPEPE/UNIESP.

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